Por que um corte pequeno merece atenção
Existe uma frase que aparece quase toda semana no consultório: “Ah, não, foi só um corte.” Ela costuma vir de quem olhou o tamanho do ferimento e concluiu que não havia mais nada para investigar.
O problema é que a mão não guarda suas estruturas em profundidade. Os tendões flexores e extensores, os nervos digitais e os pequenos vasos passam a milímetros da pele. Um corte de um centímetro, feito com uma faca, um vidro ou uma lâmina, pode ter atravessado exatamente a camada onde essas estruturas correm. O tamanho do ferimento não diz nada sobre o que ficou abaixo dele.
A consequência de não avaliar é concreta. Um tendão cortado que não é reparado a tempo se retrai, e o que seria um reparo direto passa a exigir enxerto ou reconstrução. Um nervo seccionado que fica meses sem tratamento perde parte da capacidade de recuperação, porque o músculo que ele inerva também se altera com o tempo.
Por isso a orientação é direta: corte profundo ou com sangramento considerável precisa de avaliação no mesmo dia. E, mesmo em cortes que pareçam simples, qualquer perda de movimento ou de sensibilidade em um dedo pede consulta.
Situações que aparecem com frequência no consultório
“Cortei com um vidro e o dedo não dobra mais”
Perda de um movimento específico é o sinal mais objetivo de lesão de tendão. O exame testa cada tendão separadamente, porque cada dedo tem estruturas distintas para dobrar e para esticar.
“Continuo com a ponta do dedo dormente depois do corte”
Dormência em uma área bem delimitada aponta para lesão de nervo digital. O exame compara a sensibilidade com o dedo correspondente da outra mão, que serve de referência.
“Machuquei na serra e parte do dedo se soltou”
Amputação parcial ou total é situação de pronto-socorro imediato. O segmento deve ser envolvido em compressa úmida com soro, colocado em saco plástico fechado e esse saco posto em água com gelo, sem contato direto do tecido com o gelo.
“Perdi força no braço depois de um acidente”
Lesões de nervo periférico e de plexo braquial causam perda de sensibilidade ou de força em territórios definidos. Elas também são avaliadas no consultório, e o reparo, quando indicado, é feito com microcirurgia.
Como o diagnóstico é feito
A avaliação começa pela história: com o que você se cortou, há quanto tempo, se houve sangramento intenso, o que foi feito no primeiro atendimento. O tipo de objeto e a direção do corte já sugerem quais estruturas podem ter sido atingidas.
O exame físico é detalhado e feito dedo a dedo. Ele testa a flexão e a extensão de cada articulação separadamente, para isolar o tendão flexor profundo, o tendão flexor superficial e os extensores. Testa a sensibilidade em cada território nervoso, do nervo mediano ao nervo ulnar e ao nervo radial, comparando com o lado não lesionado. Avalia a perfusão do dedo e, quando há suspeita de lesão associada, o alinhamento ósseo.
Nem sempre o exame fecha o diagnóstico. Em ferimentos com muito edema ou dor, ou quando a lesão é antiga, exames complementares como ultrassonografia e eletroneuromiografia ajudam a definir o que está comprometido e em que grau.
| Sinal no exame | O que costuma indicar | Urgência |
|---|---|---|
| Dedo não dobra ou não estica | Lesão de tendão flexor ou extensor | Avaliação no mesmo dia |
| Área do dedo sem sensibilidade | Lesão de nervo digital | Avaliação no mesmo dia |
| Sangramento pulsátil ou dedo pálido | Lesão vascular | Pronto-socorro imediato |
| Perda de força proximal no braço | Lesão de nervo periférico ou plexo braquial | Avaliação programada e precoce |
Caminhos de tratamento
Cortes superficiais, sem envolvimento de tendão, nervo ou vaso, são tratados com limpeza cuidadosa, sutura quando indicada e acompanhamento da cicatrização.
Quando há lesão de tendão, o reparo aproxima as extremidades seccionadas com técnica e fios apropriados, e o pós-operatório inclui um período de proteção com órtese seguido de reabilitação progressiva. A terapia de mão entra cedo nesse processo, porque o tendão reparado precisa deslizar para não aderir, dentro de limites seguros definidos pelo protocolo.
Quando há lesão de nervo, o reparo é feito com microcirurgia. A neurorrafia término-terminal aproxima as extremidades do nervo alinhando o epineuro, e quando existe perda de segmento pode ser necessário um enxerto de nervo sural, retirado da perna para preencher a falha. Em lesões por compressão ou por fibrose, a neurólise libera o nervo do tecido que o envolve. Tudo isso é feito com ampliação, por microscópio operatório ou lupas de magnificação cirúrgica, porque as estruturas têm dimensão milimétrica.
O acompanhamento depois de um reparo de nervo observa duas coisas distintas. Uma é a sensibilidade protetora, a percepção de calor, pressão e dor que protege o dedo de um novo machucado. A outra é a reinervação motora, que depende do tempo que o músculo ficou sem estímulo. São processos lentos, avaliados em consultas seriadas, e o que cada caso alcança depende do tipo de lesão e do intervalo até o reparo.
Situações mais complexas, como perda de cobertura cutânea, podem exigir enxertos e retalhos. O reimplante de dedo é possível em casos selecionados, e o fator determinante costuma ser o tempo até o atendimento especializado.
O Dr. Rodrigo fez residência em Cirurgia da Mão e Microcirurgia no Hospital João XXIII, em Belo Horizonte, referência estadual em trauma.
Quando procurar avaliação
Procure um pronto-socorro imediatamente diante de sangramento que não para com pressão, amputação parcial ou total, dedo pálido ou frio, ou ferimento com exposição de estruturas profundas.
Marque uma consulta quando, depois de um corte, restar perda de movimento em um dedo, dormência persistente, perda de força ou cicatriz dolorosa. Também quando uma lesão antiga tiver deixado limitação funcional, porque existem opções de reconstrução mesmo fora da fase aguda.
A cirurgia não é o final. Na verdade, muitas vezes é o início ou o meio do tratamento. Em lesões de tendão e de nervo isso é literal: o reparo feito pelo cirurgião da mão em Montes Claros cria a condição, e a reabilitação transforma essa condição em função.